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sábado, 17 de junho de 2017

#TheResistance at the movies: Presenting Cine Suffragette

Are you scared about the future? Are you disillusioned? Do you get nauseous when you watch the news? Did you answer YES to all the questions? Now comes the most important question of all: are you ready and willing to fight back and resist? If once again you answered YES, you'll be welcome to Cine Suffragette.


Since he-who-must-not-be-named was elected president of the US, I started feeling once again the burden that being a woman is. Not only a woman. Nowadays, being anything but a white-male-cisgender-straight-christian is dangerous and wrong. And it shouldn’t be.

That's why me and my fabulous internet friends decided to do what we know best: watch movies. And then analyze the movies and bring up valuable discussions about being a female, working in the movie businnes as a woman, and the representation of LGBT individuals, black, disabled and older people at the movies.


And that's why we created Cine Suffragette: an online, multilingual publication about empowerment and representativeness in film. We publish texts in English, Brazilian Portuguese, Spanish and French on the Medium platform. We also have an Instagram, Twitter, Facebook fanpage and YouTube channel.

You, members of #TheResistance, are more than welcome to read our texts and even contribute with us! Our first guest post was published this month and we will published versions in all languages. If you want to contribute, get in touch with us!

I must leave a big THANK YOU here to my partners in crime in this project: Rafaella from the blog Império Retrô and Jessica from the website Cine Espresso. <3 o:p="">



Find us at:





sexta-feira, 9 de junho de 2017

Judy e Liza: de mãe para filha / Judy and Liza: from mother to daughter

O talento é algo hereditário? Pesquisadores dizem que talento é 50% herdado nos genes e 50% desenvolvido com a prática. Nós não vamos nos aprofundar no campo da genética hoje, apenas apresentaremos um caso que, considerado sozinho, provaria que talento pode ser herança de família: o caso de Judy Garland e Liza Minnelli.

Is talent hereditary? Researchers say that talent is 50% a matter of genes, and 50% a matter of hard work. We won't dive deeper into the genetics field today, we'll simply show a case that, considered isolated, would prove that talent can run in the family: the case of Judy Garland and Liza Minnelli.
Liza Minnelli, quando jovem, tinha a aparência e a voz da mãe. Agora que está mais velha, ela se parece mais com o pai, Vincente Minnelli. Um caso semelhante ao de outra filha de uma rainha do cinema: Isabella Rossellini, que se parecia com a mãe, Ingrid Bergman, quando era mais jovem, e agora lembra mais o pai, Roberto Rossellini.

Liza Minnelli, at a younger age, looked and sounded a lot like her mother. Now that she is older, she resembles more her father, Vincente Minnelli. A similar thing happened to another daughter of cinema royalty: Isabella Rossellini, who looked like her mother, Ingrid Bergman, in her earlier years, and now looks more like her father, Roberto Rossellini.
Liza and Vincente Minnelli
Liza fez sua estreia no cinema in utero – ou quase isso. Judy, então com 23 anos de idade, estava grávida de Liza durante as filmagens de “Quando as Nuvens Passam” (1946), mas sua barriga ainda não é evidente o bastante. A garotinha que nasceu da união de Judy e Vincente foi batizada com o nome de Liza, uma canção de Ira Gershwin, seu padrinho. Com catorze meses de idade, Liza Minnelli fez sua estreia de fato no cinema, na sequência final de “A Noiva Desconhecida” (1949), protagonizado por sua mãe.

Liza first appeared on film in the womb – or almost. Judy, then 23 years old, was pregnant with Liza during shooting “Till the Clouds Roll By” (1946), but her bump is not big enough to be seen onscreen. The little girl she gave birth to was named after her godfather’s Ira Gershwin song Liza. At the age of fourteen months, Liza Minnelli did her real film debut, in the final sequence of “In the Good Old Summertime” (1949), in which her mother was the lead.
Na infância, Liza era comumente fotografada ao lado dos pais no estúdio. Quando sua mãe saía em turnê, ela a acompanhava, e por isso passava muito tempo em hotéis. Este fato fez de Liza a inspiração para a protagonista do livro Eloise, escrito por Kay Thompson, madrinha de Liza. Judy e Vincente se divorciaram em 1951, quando Liza tinha cinco anos, e Judy se casou novamente em 1952. Quando tinha 13 anos, Liza cantou “Over the Rainbow” no rádio. Escute a gravação AQUI.

During her childhood, Liza was often photographed with her parents at the studio. When her mother was on tour, she would go with her, that's why she spent a lot of time in hotels. This fact made Liza the inspiration for the character Eloise from the book of the same name, written by Liza's godmother, Kay Thompson. Her parents divorced in 1951, when she was five, and Judy remarried in 1952. When Liza was 13, she was featured on radio singing “Over the Rainbow”. Listen to her recording HERE.
Liza and Gene Kelly
Depois disso, Liza apareceria com frequência na TV, começando com “Tonight Starring Jack Paar” e “The Gene Kelly Show”, respectivamente de 1958 e 1959. Ela foi cantora convidada em “The Judy Garland Show” em duas ocasiões em 1963. Com 17 anos, ela já mostrava que tinha uma voz poderosa e muito carisma. Assistindo aos clipes do programa, é possível perceber como Liza e Judy se amavam. Foi também durante estas apresentações em seu programa que Judy percebeu que sua garotinha era agora uma mulher crescida que tinha sua própria carreira artística.

Next, Liza would appear on TV regularly, starting in “Tonight Starring Jack Paar” and “The Gene Kelly Show”, respectively from 1958 and 1959. She was a guest at “The Judy Garland Show” twice in 1963. At 17, she already showed a powerful voice and a lot of charisma. By watching the clips, you can see how mother and daughter loved each other. It was also during this show that Judy realized that her little girl was a grown up pursuing her own career.
Quando falava sobre Liza, Judy a descrevia como “muito esperta” e “com os pés no chão o tempo todo”. Muitos anos depois, Liza disse que Judy era a melhor mãe do mundo. Ela diz também que herdou seu senso de humor da ‘mama’.

While talking about Liza, Judy called her “very wise” and “with her feet on the ground all the time”. Many years later, Liza said Judy was the best mother in the world. She says she inherited her sense of humor from her mama.
Nem tudo eram flores entre mãe e filha, obviamente. Liza vivia com Judy, seu padrasto Sid Luft e seus meios-irmãos Lorna e Joe durante os anos 50 e 60. Os papéis de mãe e filha eram muitas vezes trocados, porque Liza muitas vezes tinha de cuidar da mãe quando Judy tinha suas crises e problemas com abuso de remédios. Judy tinha pouco contato com a família, segundo a minissérie “Eu e Minhas Sombras” (2001), quando faleceu em 1969. Liza fez todos os trâmites para o funeral da mãe. Ela continuou próxima do pai, Vincente Minnelli, até ele morrer em 1986, e ela é próxima de Lorna até hoje.


Not everything was wonderful between mother and daughter, of course. Liza lived with Judy, her stepfather Sid Luft and her half-siblings Lorna and Joe during the 50s and 60s. The roles of mother and daughter were often reversed, because she often looked after her mother when Judy had her on-and-off problems with mental health and pill addiction. Judy was estranged from her kids, according to the miniseries “Me and My Shadows” (2001), when she died in 1969. Liza arranged everything for her mother's funeral. She remained friends with her father, Vincente Minnelli, until he died, in 1986, and is close to her sister Lorna until today.
Judy among her children
Liza não canta as músicas da mãe, alegando que “elas já foram cantadas”. Quando perguntam a ela sobre Judy, ela só tem coisas boas para contar. Liza tinha apenas 23 anos quando Judy faleceu – a mesma idade que eu tenho hoje e não consigo imaginar minha vida sem minha mãe. O tempo de Judy e Liza juntas foi relativamente curto, mas Liza prova que o impacto de uma mãe na vida de alguém é para sempre.

Liza doesn't sing her mother's song, saying that “they have already been sung”. When asked about Judy, she only has good things to say. Liza was only 23 when Judy died – the same age I am now and I couldn't imagine how it would be losing my mom. Their time together was not long, but Liza proves that a mother's impact in someone's life lasts forever.


This is my contribution to the Judy Garland Blogathon, hosted by Crystal at her blog In the Good Old Days of Classic Hollywood.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Artistas e Modelos / Artists and Models (1955)

É ótimo quando comédias tratam dos problemas de sua época. O memorável filme “Artistas e Modelos” (1955), talvez o mais memorável dos 16 filmes de Martin e Lewis, trata tanto da caçada às histórias em quadrinhos quanto da corrida aeroespacial. Quem diria que estes dois assuntos combinariam tão bem?

It's great when comedy movies deal with current events. The memorable “Artists and Models” (1955), perhaps the best of all 16 Martin and Lewis films, deals with both the hunt against comic books and the space race. Who knew these two subjects would go so well together?
Os colegas de quarto Rick (Dean Martin) e Eugene (Jerry Lewis) são aspirantes a artistas que vivem em um grande apartamento, ao estilo F.R.I.E.N.D.S., em Greenwich Village. Rick quer ser pintor, e Eugene quer ser escritor, mas é viciado em histórias em quadrinhos. Acima deles vivem as amigas Abigail (Dorothy Malone), uma cartunista, e Bessie (Shirley MacLaine), uma secretária e modelo para a personagem Bat Lady.

Roommates Rick (Dean Martin) and Eugene (Jerry Lewis) are wannabe artists who live in a big, F.R.I.E.N.D.S.-style apartment in Greenwich Village. Rick wants to be a painter, and Eugene wants to be a writer, but is addicted to comic books. On the floor above live friends Abigail (Dorothy Malone), a cartoonist, and Bessie (Shirley MacLaine), a secretary and model for the character Bat Lady.
Rick vai até o chefe de Abigail, Mr. Murdock (Eddie Mayehoff), em busca de trabalho. Mr Murdock quer que as histórias em quadrinhos tenham mais morte e sangue, e Rick tem exatamente isto a oferecer – ou melhor, Eugene tem exatamente isto! Eugene fala enquanto dorme e em seu delírio narra aventuras intergalácticas de um personagem chamado Vincent the Vulture. Rick rouba a ideia de Eugene e tem sucesso. Entretanto, de alguma forma, dentro das histórias de Eugene há uma fórmula secreta desejada tanto pelos EUA quanto pela URSS.

Rick goes to Abigail's boss, Mr Murdock (Eddie Mayehoff), looking for a job. Mr Murdock wants comic books with more gore and blood, and Rick has exactly this to offer – I mean, Eugene has exactly this! Eugene talks in his sleep and narrates the intergalactic adventures of a character named Vincent the Vulture. Rick takes Eugene's idea and turns it into a success. But somehow, inside Eugene's stories there is a top secret formula wanted by both USA and USSR.
Assim como muitas duplas, Martin e Lewis tiveram sucesso porque seguiram a fórmula palhaço + cara sério. Lewis era o palhaço da dupla, seguindo o exemplo de Stan Laurel e Lou Costello; e Martin era o cara sério, assim como Oliver Hardy e Bud Abbott. Cada década, do final dos anos 20 ao final dos anos 50, teve sua própria grande dupla cômica.

Like many duos, Martin and Lewis were successful because of the perfect formula stooge + straight man. Lewis was the stooge, like Stan Laurel and Lou Costello; and Martin was the straight man, like Oliver Hardy and Bud Abbott. Each decade, from the late 1920s until the late 1950s, had its own golden duo.
Na década de 1950, conservadores que não tinham nada melhor para fazer decidiram começar uma cruzada contra as histórias em quadrinhos, alegando que elas estavam corrompendo os jovens. Em “Artistas e Modelos”, uma mãe “preocupada” deixa seu filho no consultório de Mr Murdock para que o empresário veja o que ele está causando às mentes não desenvolvidas com seus quadrinhos. O pestinha é interpretado por George ‘Foghorn’ Winslow, o garotinho que esteve memorável em “O Inventor da Mocidade” (1952), brincando de índio com Cary Grant e dizendo: “You’ve got to do a war dance first!”.

During the 1950s, conservatives with nothing better to do decided to do some kind of witch hunt with comic books, alleging that the comics were corrupting the young minds. In “Artists and Models”, a “concerned” mother leaves his son at Mr Murdock's office in order to make the entrepreneur see what he has caused to an undeveloped mind with his comic books. The little brat is played by George 'Foghorn' Winslow, the boy who was memorable in “Monkey Business” (1952) while playing with Cary Grant and saying: “You've got to do a war dance first!”.
Para dar ao filme um ar de história em quadrinho, Frank Tashlin foi escolhido como diretor. Tashlin havia dirigido desenhos dos Looney Tunes desde 1936, e certamente tinha know-how sobre animação e design Tashlin se esforçou muito para ter no filme piadas mais ousadas, e foi impedido pela censura algumas vezes durante a produção.

To give the film a cartoon vibe, Frank Tashlin was hired as director. Tashlin had directed Looney Tunes cartoons since 1936, and certainly had know-how about animation and design. Tashlin made an effort to add risqué jokes and some innuendo to the film, and was stopped by censorship a couple of times during production.
Jerry Lewis dependia igualmente de comédia física e verbal. Ele tem ótimas falas, e três momentos especiais de slapstick: o jantar chique em casa, depois do qual ele canta “When You Pretend”, a gag em que ele sobe e desce as escadas e depois entra na banheira para dar um recado da Dean Martin, e a situação no massagista que se assemelha a uma partida do jogo Twister. Dois outros momentos merecem ser mencionados: Shirley MacLaine cantando “Innamorata” e dançando um balé improvisado com Lewis, e a breve piada com James Stewart e “Janela Indiscreta” (1954).

Jerry Lewis relied equally on physical and verbal comedy. He has a lot of funny one-liners, and three special slapstick moments: the fancy dinner at home, after which he sings “When You Pretend”, the gag in which he comes up and downstairs then enters the tub to give Dino a phone message, and the situation at the massage parlor that is basically a huge game of Twister. Two other moments are worth mentioning: Shirley MacLaine's rendition of “Innamorata”, followed by her improvised ballet with Lewis, and the brief joke about James Stewart and “Rear Window” (1954).
Colorido, divertido e com uma trama maluca, “Artistas e Modelos” pode não ter as melhores canções da carreira de Dean Martin, mas com certeza é um ótimo filme para ser apreciado e, com sorte, apresentar alguns de seus amigos ao cinema clássico de Hollywood.

Colorful, funny and with a crazy plot, “Artists and Models” may not have the best songs ever sung by Dean Martin, but it surely is a great film to spend time with and, with luck, introduce some of your friends to Classic Hollywood.


This is my contribution to the Dean Martin Centenary Blogathon, hosted by Samantha at Musings of a Classic Film Addict.

domingo, 28 de maio de 2017

Uma ode a Orson Welles / An ode to Orson Welles

Algumas coisas são fáceis de aprender. Tipo álgebra. E gramática. E a fotossíntese. E uma segunda língua. Estas coisas foram fáceis de aprender se você foi uma criança prodígio, como eu fui. Porque há uma única coisa realmente difícil para um prodígio aprender: a crescer. Orson Welles foi considerado o garoto prodígio de Hollywood, e teve problemas após seu brilhante começo de carreira. É por isso que eu o amo tanto e o compreendo tão bem: eu estive no lugar dele.

Some things are easy to learn. Like algebra. And grammar. And historical facts. And the photosynthesis. And a second language. These things were easy to learn if you were a child prodigy, like I was. Because there is only one difficult thing for a child prodigy to learn: how to grow up. Orson Welles was considered the boy wonder of Hollywood, and had a hard time after his brilliant beginning. That's why I love him so much and understand him so well: I know his pain.
Como criança prodígio, você recebe elogios e apalusos das pessoas – dos adultos, que são os que realmente importam. Você acha que sempre será assim. Mas então o tempo passa, e mais cedo ou mais tarde você terá de se adequar a um padrão. O horrível, medíocre padrão dos adultos. Os prodígios raramente seguem este padrão e acabam frustrados e sozinhos. Orson não conseguiu se adequar ao padrão de Hollywood e em 1948 partiu para a Europa, onde ele vagou e fez alguns ótimos, porém falhos, filmes, até sua morte em 1985.

As a child prodigy, you receive compliments and applause from the others – the adults, the ones that really matter. You think it'll always be like that. But then time passes, and sooner or later you will be forced to follow a pattern. The horrible, ordinary pattern of adulthood. Prodigies rarely follow this pattern, and end up frustrated and alone. Orson couldn't follow the Hollywood pattern, and in 1948 left for Europe, where he wandered and made some great, yet flawed films, until his death in 1985.
Vejamos dois momentos na carreira de Welles.

Let's see a bit of two moments of Welles's career.

Too Much Johnson (1938) = Keystone Kops + Eisenstein +Buñuel


Eu vi este filme por pura curiosidade. 'Too Much Johnson” é na verdade um experimento. É – surpresa – uma comédia muda! O filme deveria ser exibido durante a montagem de uma peça de William Gillette feita pelo Mercury Theatre, companhia teatral de Welles. Entretanto, a Paramount tinha os direitos para adaptar a história para o cinema e Welles teve de desistir de seu projeto.

I watched this film out of curiosity. “Too Much Johnson” is actually an experiment. It is – surprise, surprise – a silent comedy! The film was meant to be shown during a stage production of a William Gillette play by Welles's Mercury Theatre. However, Paramount held the rights to film the story and Welles couldn't go on with his idea.
Welles nunca editou as cenas filmadas. Por décadas os rolos de filme foram considerados perdidos, até que foram encontrados e restaurados em 2013. Duas versões surgiram a partir da restauração: uma com todas as cenas, totalizando 67 minutos, e uma editada por Ciro Giorgini, com 34 minutos de duração e uma história inteligível.

Welles never edited his shots, and abandoned the project. For decades it was considered lost until it was restored in 2013. Two versions came out of the restoration: one with all the takes, running 67 minutes, and one properly edited by Ciro Giorgini, running 34 minutes and making more sense.
É difícil escrever uma sinopse para “Too Much Johnson”. É a história de um homem (Joseph Cotten) que é perseguido pelo marido de sua amante até Cuba. A perseguição nos lembra dos curtas dos Keystone Kops, e como é uma obra inacabada, a versão de 67 minutos tem alguns toques de Eisenstein – com as cenas frenéticas uma após a outra e muitos experimentos com a câmera – e Buñuel – porque os últimos 15 minutos não fazem sentido para quem não conhece a peça.

“Too Much Johnson” is hard to synopsize. It's about a man (Joseph Cotten) who is chased by his misstress's husband all the way to Cuba. The chase reminds us of the Keystone Kops silents, and since it is unfinished, the 67 minute version has some flashes of Eisenstein – with the frantic scenes going one after the other and lots of camera experimentation – and Buñuel – because the last 15 minutes don't make sense for those not familiar with the play.
Depois deste pequeno problema em 1938, Orson Welles se tornou famoso com sua leitura de A Guerra dos Mundos no rádio. Este episódio o levou para Hollywood, mais precisamente para os estúdios RKO, onde ele fez “Cidadão Kane” (1941).

After this little problem in 1938, Orson Welles gained great fame with his infamous broadcasting of War of the Worlds in the radio. This episode also took him to Hollywood, more precisely to the RKO studios, where he made “Citizen Kane” (1941).

Othello (1952) = Laurence Olivier + Noir + Ingmar Bergman


É a velha história de Otelo, o mouro de Veneza, interpretado pelo próprio Welles. Otelo é levado por Iago (Micheál MacLiammóir) a crer que sua esposa Desdêmona (Suzanne Cloutier) o está traindo. Uma tragédia acontece.

It's the old story of Othello, the moor of Venice, who is played by Welles himself. Othello is poisoned by Iago (Micheál MacLiammóir) and is led to believe that his wife Desdemona (Suzanne Cloutier) is unfaithful. Tragedy follows.
Welles era megalomaníaco, mas de alguma forma conseguiu tranformar a peça, que tem quase três horas de duração, em um filme de 90 minutos. Mas ele fez isto durante três anos e vários projetos, sempre ficando sem dinheiro e tendo que parar a produção e improvisar. O ator irlandês Micheál MacLiammóir, por exemplo, foi escalado como Iago após Everett Sloane, um excelente ator, recusar o papel.

Welles was megalomaniac, but somehow was able to trim the original play, that runs nearly three hours, into a 90 minute film. But he did it through three years and several projects, always running out of money and having to stop production and improvise. Irish actor Micheál MacLiammóir,  for instance, was cast as Iago only after Everett Sloane, a superb character actor, dropped the offer.
Laurence Olivier foi o epítome do Shakespeare filmado. “Otelo” nos lembra do maravilhoso “Hamlet” (1948) de Olivier, considerando seu tom. Se considerarmos apenas o visual do filme, nos lembramos do filme noir – com sombras ousadas e iluminação inusitada – e de Ingmar Bergman, porque a sequência inicial de “Otelo”, que dura quase cinco minutos, certamente influenciou “O Sétimo Selo” (1957), de Bergman.

Laurence Olivier was the epitome of filmed Shakespeare. “Othello” reminds us of Olivier's outstanding “Hamlet” (1948) in tone. If we consider the look of the movie, we are reminded of film noir – with daring shadows and unusual lightning – and Ingmar Bergman, because the opening sequence of “Othello”, that is nearly five minutes long, certainly influenced Bergman's “The Seventh Seal” (1957).
Boa parte de “Otelo” é enfadonha. Mas o clímax é redentor. Os 30 minutos finais são incríveis, e mostram como Welles era habilidoso tanto como ator quanto como diretor. “Otelo” foi fruto de um duro trabalho, filmado em Marrocos, Veneza, na Toscana e em Roma, e estreou em Cannes com muitos elogios, inclusive ganhando a Palma de Ouro.

A good deal of “Othello” is boring. But the climax is redeeming. The last 30 minutes are amazing, and show how skillful Welles was as both an actor and director. “Othello” was a hard labor of love, filmed in Morocco, Venice, Tuscany and Rome, and debuted in Cannes to great acclaim, winning the Palme D'Or.
Welles não se adequou ao padrão de Hollywood e se rebelou para poder continuar fazendo o que queria e aquilo em que acreditava. Muitos de seus filmes ficaram inacabados, e seu último filme estreará ano que vem – mais de 30 anos após sua morte. Mas Welles resistiu, como eu resisto enquanto crítica de cinema clássico, e como todos os prodígios deveriam resistir. Orson Welles é, acima de tudo, uma grande inspiração para os incompreendidos.

Welles didn't fit the Hollywood pattern and rebelled in order to keep on doing what he wanted, and what he believed. Many of his films were left unfinished, and his last one will debut next year – more than 30 years after his death. But Welles resisted, as I resist as a classic film critic, as all prodigies should resist. Orson Welles is, above all, a great source of inspiration for the misfits.


This is my heartfelt contribution to the Favorite Director Blogathon, hosted by Laura and Quiggy at Phyllis Loves Classic Movies and The Midnite Drive-In.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Variações sobre um mesmo tema: Adeus às Armas (1932 e 1957)

Variations on the same theme: A Farewell to Arms (1932 and 1957)

Você com certeza já ouviu falar de Ernest Hemingway, o escritor americano que adorava duas coisas: a vida boêmia e gatos. Nenhum destes interesses do autor tem espaço naquela que é sua mais famosa obra: o romance “Adeus às Armas”.

You probably have heard about Ernest Hemingway, the American writer who loved two things: the bohemian life and cats. None of these appears in the author's most famous book, the novel “A Farewell to Arms”.
Hemingway foi motorista de ambulância na Itália durante a Primeira Guerra Mundial, e em 1929 publicou um livro baseado nesta experiência. Em “Adeus às Armas”, o motorista de ambulância americano Frederic Henry e a enfermeira inglesa Catherine Barkley se apaixonam durante a guerra. O amor poderá esperar até que haja paz? É só isso. E é só o começo de tudo.

Hemingway was an ambulance driver in Italy during World War I, and in 1929 published a book based on these times. In “A Farewell to Arms”, the American ambulance driver Frederic Henry and the English nurse Catherine Barkley fall in love amidst the war. Could love wait until peace arrives? That's basically it. And that's just the beginning of everything.
No ano seguinte à publicação do livro, a história foi adaptada para o teatro e logo foi feita uma versão para o cinema. Fredric March, contratado para ser o protagonista, recusou o papel ao saber que Frank Borzage o dirigiria. Foi a oportunidade perfeita para um homem alto e charmoso que crescia cada vez mais em Hollywood: Gary Cooper.

The years after the book was published, the story was adapted into a play and soon an adaptation to the screen followed. Fredric March, hired to be the leading man, refused it when he heard that Frank Borzage was assigned as the director. It was a perfect opportunity for a tall and charming man who was getting more and more space in Hollywood: Gary Cooper.
Ao seu lado estava Helen Hayes, admirada no teatro – onde começou aos cinco anos interpretando meninos – e que havia ganhado o Oscar de Melhor Atriz no ano anterior. Em apenas uma hora e meia – a versão de 1957 tem duas horas e meia – as mais de trezentas páginas do romance de Hemingway são contadas com boas omissões. O foco fica no casal e não na guerra. 

Next to him there was Helen Hayes, an admired lady of the theater – where she started at five playing male roles – and who had just won the Best Actress Oscar the year before. In just an hour and a half – the 1957 version is two and a half hours long – the more than 300 pages from Hemingway's novel are told with a lot of ommissions. The focus is on the couple, not the war.
Assim como tudo que Borzage fez, “Adeus às Armas” é um deleite para os olhos. Você está na guerra, mas há um belo palácio onde as enfermeiras e os comandantes ficam, com uma gloriosa fonte no jardim. Este jardim é o cenário da maioria das cenas belas de românticas do filme.

Like anything Borzage did, “A Farewell to Arms” is a feast for the eyes. You are in the war, but you have a beautiful palace where the nurses and commanders stay, with a glorious fountain in the garden. This garden is the scenario for the most beautiful and romantic scenes of the movie.
Helen Hayes desenvolveu um crush em Gary Cooper, enquanto Cooper e Hemingway se tornaram grandes amigos. O que não deixou Hemingway feliz foi a maneira como Hollywood tratou seu precioso material, mudando o personagem Rinaldi (interpretado por Adolphe Menjou), e até filmando dois finais para que os donos dos cinemas pudessem decidir se queriam um final feliz ou triste para a sessão. No final, as críticas foram diversas, mas em sua maioria positivas.

Helen Hayes developed a crush on Gary Cooper, while Cooper and Hemingway became lifelong friends. What didn't make Hemingway happy was how Hollywood tackled his precious material, changing character Rinaldi (played by Adolphe Menjou), and even filming two endings so theater owners could decide if they wanted a happy or a sad ending for the session. In the end, the reviews were mixed, but mostly positive.
Desde o começou tem-se a impressão de que David O. Selznick quis repetir com sua adaptação de “Adeus às Armas” o sucesso de “E o Vento Levou...”. O próprio título é apresentado da mesma forma, com as letras imensas rolando da direita para a esquerda da tela. Assim como sua obra de 1939, este também conta com cenários de tirar o fôlego, o tema da guerra, os muitos feridos e o uso expressivo da cor.

Since the beginning we get the impression that David O. Selznick was trying, with his adaptation of “A Farewell to Arms”, to repeat the success of “Gone with the Wind”. The title itself is presented the same way, with huge letter rolling from right to left on the screen. Just like his 1939 film, this one also has breathtaking scenarios, the war theme and an expressive use of color.
Protagonizado por Rock Hudson, interpretando Frederic como um tenente, e Jennifer Jones, conta ainda com os talentos secundários de Vittorio de Sica, Alberto Sordi e Mercedes McCambridge. Um usuário do IMDb não considerou boa a escalação de Jennifer, então esposa de Selznick, para o papel principal (e não tenho dúvida de que, se o produtor tivesse conhecido Jennifer nos anos 30, apesar da pouca idade, ele faria um lobby para ela ser incluída no elenco do épico sobre a Guerra Civil Americana). O usuário disse que Jennifer era velha demais para o papel.

The film is lead by Rock Hudson, playing Frederic as a lieutenant, and Jennifer Jones, and also have, as supporting players, Vittoria de Sica, Alberto Sordi and Mercedes McCambridge. An IMDb user didn't like the casting of Jennifer Jones, then Selznick's wife, as the lead (and I have no doubt that, if the producer had met Jennifer in the 1930s, even though she was too young, he would have lobbied for a role for her in the Civil War epic). The user said Jennifer was too old for the part.
Embora eu goste da atriz (sensacional em “A Canção de Bernadette”, de 1943), fica claro que o filme foca mais no personagem de Hudson. Entretanto, se fosse necessário substituir a protagonista, surgem duas possibilidades em minha mente: Deborah Kerr, o que não seria ruim já que ela continuaria a ser mais velha que Rock, ou Elizabeth Taylor, que à primeira vista parece perfeita para o papel.

Even though I like Jennifer (who is sensational in “The song of Bernadette”,  from 1943), it's clear that the film is focused on Rock's character. But if it was necessary to replace the leading lady, I'd have two suggestions: Deborah Kerr, who was also older than Rock, and Elizabeth Taylor, who seems just perfect for the role.
Selznick só conseguiu o direito para adaptar a obra de Hemingway através de uma troca: a Warner Brothers, que possuía esse direito, queria fazer uma nova versão de “Nasce uma Estrela”, que estava sob a tutela de Selznick, produtor da versão de 1937. A troca foi simples e as ambições de Selznick começaram a se acumular.

Selznick only got the rights to adapt Hemingway's book through an exchange: Warner Brothers, who had this right, wanted to make a new version of “A Star is Born”, and Selznick, who produced the 1937 version, had the rights over the story. The exchange was simple and Selznick's ambitions started to pile up.
Buscando cenários autênticos, Selznick demitiu o primeiro diretor, John Huston, e mandou Charles Vidor filmar nos Alpes italianos. Ele também não economizou na duração do filme, e foi mais fiel ao livro de Hemingway, embora novamente focasse mais no casal e menos na guerra. No final, foi um filme grandioso, mas uma decepção para a crítica e a bilheteria.

Looking for authentic scenarios, Selznick fired his first director, John Huston, and sent Charles Vidor to shoot in the Italian Alps. He also didn't save on screen time, and was more faithful to Hemingway's book, although again focusing more on the couple than on the war. In the end, it was a grandiose film, but a box office and critical disappointment.
Estas foram as duas únicas adaptações de “Adeus às Armas” para o cinema. Embora nenhuma das duas seja perfeita por causa das liberdades tomadas, ambas têm qualidades e são bons filmes, cada um em sua fatia da história de Hollywood.

These were the only two adaptations of “A Farewell to Arms” into feature films. Even though none of the versions is perfect due to the liberties taken, both have qualities and are worthy pieces of movie history.

O veredicto: se você tiver tempo sobrando, veja as duas versões (a primeira versão está em domínio público!). Mas leia antes o livro!

The verdict: if you have enough time, watch both versions (the first version is on public domain!). But read the book first!


This is my contribution to the Medicine in the Movies Blogathon, hosted by Charlene at Charlene’s (Mostly) Classic Movie Reviews.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Five Stars blogathon - My Top 5 classic film stars

Happy National Classic Movie Day!

Para a celebração deste ano do Dia Nacional do Cinema Clássico, o Rick do Classic Film and TV Café nos pediu algo quase impossível: que escolhêssemos as cinco estrelas de cinema antigo que mais amamos. Ah, a dor lancinante que  esta tarefa me causou! As dúvidas! As ponderações! As noites em claro fazendo esta lista!

For this year's celebration, Rick at the Classic Film and TV Café asked us a nearly impossible thing: to name our five favorite classic film stars. Oh, the excruciating pain that this task made me go through! The doubts! The regrets! The pondering! The nights I couldn't sleep thinking about this list!

Eu acabei escolhendo os “cinco primeiros”. Muitos outros vieram e se juntaram a este grupo, e eu ainda estou descobrindo novas estrelas e adicionando-as ao meu panteão. Mas estes sempre terão um lugar especial no meu coração. Talvez não porque eles sejam os melhores – e na minha opinião eles são – mas porque eles foram os primeiros que eu conheci e aprendi a amar.

I ended up choosing the “first five”. Many others came and joined this group, and I'm always discovering new stars to add to my pantheon. But these will always have a special place in my heart. Maybe not because they are the best – and in my opinion they are – but because they were some of the first I came to know and love.

Katharine Hepburn: A melhor atriz da era clássica. Aquela que ganhou quatro Oscars. A lenda número 1 segundo a AFI. Eu me impressionei com todas estas conquistas, e comecei a procurar por filmes dela. Quando eu finalmente a vi na tela, eu soube que todo título, prêmio e honra havia sido merecido. Kate é uma força da natureza, uma atriz refinada com imensa versatilidade ao atuar, alguém que poderia interpretar qualquer papel com perfeição. Ah, e ela também é um excelente exemplo de mulher esperta e independente!
Katharine Hepburn: The best actress of the classic film era. The one who got four Oscars. The number 1 AFI legend. I was impressed with all these accomplishments, then I started looking for her films. When I finally saw her onscreen, I knew every single title, award and honor was well deserved. Kate is a force of nature, a refined actress, one with huge acting range and someone who could play any part with perfection. And, oh, she is a really great role model as a smart and independent woman!
Greta Garbo: Já houve no mundo alguém tão bonito quanto Garbo? Eu acho que não. Desde o começo, eu olhava para o rosto dela como se olhasse para algo etéreo, especial, que não é deste mundo. Ela brilhou com a mesma intensidade em filmes mudos e falados, e eu ainda fico impressionada com toda e qualquer foto que vejo dela.
Greta Garbo: Has there ever been someone as beautiful as Garbo on Earth? I don't think so. Since the beginning, I looked at her face as if I was looking into something ethereal, special, not from this world. She shone equally in silents and talkies, and I'm still left speechless with every single picture of her I see.
Jean Harlow: Assim como muitas pessoas, eu li sobre a morte de Harlow antes de ler sobre a vida e carreira dela. A deusa loira viveu apenas 26 anos, mas o trabalho dela vive para sempre, e nunca para de me impressionar. Eu a adoro tanto como comediante quanto como sedutora. Jean podia interpretar qualquer papel com perfeição.
Jean Harlow: Like many people, I learned about Harlow's death before knowing about her life and career. The blonde goddess lived only 26 years, but her work is out there, forever, and never stops amazing me. I love her as a comedienne and as a femme fatale of sorts. Jean could do anything, with perfection.
James Cagney: Foi Harlow que me levou a Cagney. Eu comecei a ver o único filme que eles fizeram juntos, “Inimigo Público” (1931), por causa dela, mas ao final estava hipnotizada por ele. Cagney colocava doses iguais de amor e energia em tudo que fazia, e isso fez dele um grande homem – e um ator maior ainda.
James Cagney: Harlow was the one who led me to Cagney. I started watching their only film together, “Public Enemy” (1931) because of her, but in the end I was mesmerized with him. Cagney put love and energy in everything he did, and this makes him a great guy – and an even greater actor.
Lon Chaney: Eu estava em dúvida entre Chaney e Keaton, mas escolhi Cahney. Eu sei que Keaton é muito popular entre os fãs de cinema clássico, e eu também o amo muito. Na verdade, eu acredito que quase tudo que vou falar sobre Chaney também se aplica a Keaton. Ele era versátil. Ele era corajoso. Ele era criativo. Qualquer filme fica melhor com ele. Chaney nunca me desapontou.
Lon Chaney: I was torn between Chaney and Keaton, but chose Chaney. I know Keaton is very popular among the classic film fandom, and I also love him to pieces. Actually, I think almost everything I'll say about Chaney also suits Keaton. He was versatile. He was bold. He was creative. Any movie is better with him. Chaney has never disappointed me.
This is my contribution to the Five Stars Blogathon, hosted by Rick at Classic Film and TV Café. Now it’s time to party!
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